Protesting precarity, reimagining care: The waves of the Portuguese care movement and the fight for a national care service
de Madalena Ferreira
Os cuidados têm-se tornado num espaço de contestação perante pressões demográficas e económicas, suscitando mobilizações que desafiam os atuais modelos de Estado social. Este artigo examina de que modo estratégias de enquadramento, alianças e relações institucionais moldaram as trajectórias e a percepção de sucesso de duas vagas do movimento português pelo cuidado. Embora a literatura sobre movimentos sociais tenha salientado como as oportunidades políticas, os aliados entre as elites, o enquadramento e a construção de coligações influenciam os resultados, e embora a investigação sobre a economia política do cuidado tenha destacado os constrangimentos estruturais e culturais à mobilização, sabemos menos sobre as razões pelas quais o mesmo movimento, no mesmo contexto nacional, pode por vezes ser bem-sucedido e noutras não atingir os seus objetivos. Esta questão é abordada comparando duas vagas do movimento português pelo cuidado: a campanha bem-sucedida pelo Estatuto do Cuidador Informal (2016-2019) e a Iniciativa Legislativa de Cidadãos para um Serviço Nacional de Cuidados (2022-2024) que não conseguiu o mesmo nível de adesão. Com base em entrevistas semiestruturadas e em cronologias de mobilização, a comparação demonstra como diferentes estratégias de enquadramento e envolvimentos institucionais moldaram os resultados em duas vagas do movimento português pelo cuidado. As conclusões contribuem para os debates sobre cuidado e movimentos sociais, evidenciando de que modo as estratégias de enquadramento, as coligações e o envolvimento institucional influenciam os resultados, e mostrando os compromissos e trade-offs entre ganhos incrementais e ambições transformadoras em contextos de bem-estar familiaristas.
Quem é quem? Retrato sociográfico e canais de recrutamento dos e das autarcas portuguesas (2021-2025)
de Margarida Estêvão
O poder local afirmou-se desde a Revolução de Abril de 1974 como um dos pilares centrais do regime democrático português. Ainda assim, apesar da sua relevância política e simbólica, a investigação académica nacional tem privilegiado o estudo do poder central, deixando o universo autárquico relativamente pouco explorado. Este paper, que resulta de um projeto doutoral em curso, procura contrariar esta tendência, atualizando o conhecimento disponível sobre o poder local e os seus protagonistas. A partir de um inquérito nacional dirigido aos e às autarcas em funções (2021-2025), este estudo apresenta análise estatística descritiva e uma caracterização sociográfica e biográfica dos e das atuais Presidentes de Câmara Municipal em Portugal, oferecendo uma perspectiva empírica sobre as dinâmicas de recrutamento e renovação da elite autárquica portuguesa. Os resultados apontam para uma moldura do poder local português como espaço paradoxal, simultaneamente reprodutor de padrões clássicos de seleção de elites, mas também transformador e potenciador das oportunidades para a diversificação social das bases de representação política e de reforço da legitimidade política local.
Uma análise territorial do trabalho digno: Desigualdades nos Municípios Portugueses
de Sara Franco da Silva
Este paper é realizado no âmbito do projeto de doutoramento “Trabalho digno e desigualdades sociais na sociedade digital” e procura analisar as condições de trabalho digno nos municípios portugueses. Para o efeito, estabeleceram-se os seguintes objetivos: 1) propor uma definição operatória do conceito de “trabalho digno”; 2) avaliar a adequação dos indicadores existentes para monitorizar o trabalho digno nas suas diferentes dimensões a nível municipal em Portugal Continental; 3) caracterizar as experiências de trabalho digno dos indivíduos nos municípios e dar conta de disparidades territoriais nessas experiências. Utiliza-se como fonte empírica dados estatísticos institucionais de base municipal produzidos pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), pelo Instituto de Segurança Social e pelo Ministério do Trabalho, tendo como finalidade a construção de um sistema de indicadores de monitorização do trabalho digno à escala local. A partir dos indicadores disponíveis mapearam-se seis dimensões de trabalho digno: oportunidades de emprego, estabilidade laboral, conciliação entre o trabalho e a vida familiar/pessoal, rendimentos justos, proteção social e contexto económico. A análise desenvolvida deu conta da existência de desigualdades territoriais nas condições de trabalho digno dos indivíduos em Portugal Continental, identificando três configurações de territórios distintas.
Saúde mental no ensino superior: Representações sociais e desafios na construção da investigação
de Gabriela Caldeira
A saúde mental tem sido objeto de crescente atenção interdisciplinar, sendo reconhecida como um fenómeno socialmente preocupante, sobretudo entre estudantes do ensino superior. Estudar sociologicamente a saúde mental revelou-se uma tarefa exigente, mas intelectualmente estimulante, não apenas pelas fronteiras por vezes ténues entre campos disciplinares, mas também pelos desafios metodológicos que emergiram ao longo do percurso, obrigando à revisão de estratégias e à reformulação do desenho inicial. Com este paper pretende-se dar a conhecer uma investigação desenvolvida no âmbito do doutoramento, centrada nas representações de estudantes do ensino superior sobre a saúde mental. Procura-se refletir sobre os processos de construção destas representações e sobre as dificuldades inerentes à abordagem de um campo particularmente complexo, como se mostrou ser o das representações em saúde mental. Dos resultados preliminares apresentados, destaca-se que as diferenças nos métodos pedagógicos e de avaliação, em relação ao ensino secundário, geram ansiedade e stress, prejudicando o desempenho académico. Muitos estudantes referem dificuldade em lidar com estas exigências, reconhecendo que elas condicionam o processo de adaptação e têm impacto na sua saúde mental. As pressões exercidas pelas dinâmicas internas da academia e por fatores externos, associadas à falta de tempo para conciliar as diferentes dimensões da vida, surgem igualmente como fontes relevantes de mal-estar. Identificam-se, ainda, processos de estigmatização associados ao sofrimento mental e diferenças de género nos modos de consumo e práticas de saúde. Por fim, observam-se visões distintas sobre a saúde mental, sustentadas em discursos mediáticos e medicalizados que circulam na sociedade.
Qualidade de vida e bem-estar: Convergências, divergências e delimitação conceptual
de Susana Dias
O presente trabalho tem como objetivo clarificar os contornos conceptuais da qualidade de vida e do bem-estar, dois conceitos frequentemente utilizados de forma intercambiável, mas que carecem de delimitação conceptual clara na sua aplicação científica. Para tal, foi realizada uma revisão da literatura, procurando identificar diferentes definições, usos disciplinares e metodológicos associados a cada conceito. A análise permitiu compreender a qualidade de vida como um constructo multidimensional, dinâmico e contextual, que integra simultaneamente indicadores objetivos e subjetivos, aplicável tanto ao plano individual como coletivo. A sua essência reside na articulação equilibrada entre diferentes dimensões, evitando reduções a dimensões únicas ou a meras somas de indicadores. O bem-estar, por sua vez, assume igualmente uma natureza multidimensional e transdisciplinar, podendo remeter tanto para um conceito geral—próximo da qualidade de vida—como para dimensões específicas, como o bem-estar físico, psicológico ou económico. A clarificação conceptual destes constructos revela-se, assim, imprescindível para fundamentar a escolha do enquadramento a privilegiar em investigações futuras e para orientar, de forma consistente, a definição do rumo da investigação que se pretende realizar.
As publicações podem ser consultadas diretamente através do Repositório do Iscte.