O Laboratório de Estudos Sociais sobre o Nascimento (nascer.pt) realizou esta semana, no Iscte – Instituto Universitário de Lisboa, o seu I Fórum, dedicado ao tema "Percursos e Perspetivas Críticas sobre o Nascimento". Reunindo mais de meia centena de participantes entre investigadores, estudantes e profissionais de saúde, o encontro constituiu um espaço de reflexão aprofundada sobre as dimensões sociológicas, políticas e demográficas do ato de nascer, com a apresentação de dados do projeto internacional IPOV – Respectful Care (International Platform on Obstetric Violence), no qual colaboram investigadoras do CIES-Iscte.
A sessão de abertura esteve a cargo de Dulce Morgado Neves (nascer.pt / CIES-Iscte) e Elsa Pegado (Direção do CIES-Iscte), dando início a um programa focado na análise crítica das práticas de assistência ao parto e na saúde reprodutiva.


A conferência principal foi proferida por Patrizia Quattrocchi, investigadora e antropóloga da Università degli Studi di Udine. Na sua intervenção ("Violencia Obstétrica. De los movimientos sociales latinoamericanos a las agendas políticas internacionales y europeas: una trayectoria de tres décadas"), a especialista traçou uma rigorosa resenha histórica sobre a evolução das agendas políticas em torno da violência obstétrica (VO) e do nascimento nos últimos 30 anos.
Quattrocchi sublinhou que a IPOV é também uma plataforma digital interativa e globalmente acessível que recebe depoimentos diretos, além de disponibilizar materiais informativos e formativos úteis para a investigação e para o desenvolvimento de políticas de cuidados respeitosos na maternidade, a nível europeu e internacional.
No painel da manhã, moderado por Amélia Augusto (nascer.pt / CIES-Iscte e UBI), cruzaram-se perspetivas multidisciplinares sobre o parto e a procriação:
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Procriação Medicamente Assistida (PMA): Catarina Delaunay (CICS.NOVA) analisou as controvérsias sociotécnicas em torno do "corpo feminino intervencionado", articulando a materialidade biológica da PMA com as reflexões e críticas dos estudos feministas.
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O Hospital como "Não-Lugar": Mário J.D.S. Santos (RISE-Health - IPSantarém) apresentou uma reflexão sobre a socialização profissional na assistência ao parto, questionando se os hospitais não estarão a atuar como "não-lugares" no nascimento. O investigador destacou a existência de uma "gestão permanente da violência com acordos tácitos" e defendeu que "a normalização do hospital como lugar para se parir deve ser questionada pelas ciências sociais".
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Parentalidades Dissidentes: O painel contou ainda com a reflexão de Milena do Carmo (CES-UC) sobre o cuidado exercido por homens trans no Brasil e em Portugal.
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Perspetiva Demográfica: Sónia Pintassilgo (CIES-Iscte), especialista em demografia, apresentou dados quantitativos sobre a natalidade em Portugal. Em 2024, o índice de fecundidade situava-se nos 1,4 filhos por mulher, com a idade predominante do parto entre os 30 e os 34 anos e mais de 8% dos partos a ocorrer em gestantes com mais de 40 anos.
Sónia Pintassilgo destacou também que, embora o decréscimo populacional em Portugal seja um movimento com raízes nos anos 1960 (pela emigração e introdução de contracetivos), assiste-se hoje a um importante contributo da população imigrante: 25% dos nascimentos em 2024 em Portugal deram-se na população estrangeira residente. A especialista concluiu enfatizando a necessidade de ler "a natalidade como fenómeno político e a fecundidade como fenómeno social".

Oficinas Metodológicas e Distinções Científicas
Na segunda metade do dia, o evento promoveu quatro oficinas metodológicas simultâneas focadas em metodologias avançadas de investigação social:
- Diagrama de Lexis na Análise Sociológica do Nascimento (Sónia Pintassilgo - CIES-Iscte);
- Art-Based Methods: Mapeamento Corporal, Fotografia Narrativa e Paisagem Sonora (Serena Brigidi - URV);
- Autoetnografia, Corpo e Nascimento (Chiara Pussetti - ICS-UL);
- Método Biográfico Narrativo Interpretativo - BNIM (Maria Madalena d'Avelar - CIES-Iscte).
O evento encerrou com a entrega dos prémios atribuídos pelo júri científico à mostra de pósteres:
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Prémio de "Melhor Póster Científico": Atribuído a Ana Bela Gil, com o trabalho "O Agendamento Político da Violência Obstétrica em Portugal".
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Prémio de "Melhor Póster Científico de Estudante": Atribuído a Cleidi Pereira, com a investigação "Violência Obstétrica e Interseccionalidade: Narrativas de Parto da Diáspora Brasileira em Portugal".