Que palavras nos ocorrem quando pensamos em "universidade"? E se, por uma noite, fôssemos nós a decidir o título de uma notícia? Foi com estas duas perguntas que o CIES-Iscte ocupou o claustro do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC), em Lisboa, na Noite Europeia dos Investigadores 2026. Entre as 17h e as 23h, cerca de 160 visitantes de todas as idades participaram em duas propostas interativas que transformaram temas de investigação em ciências sociais em conversa aberta.
Que ideia de universidade temos?
A primeira atividade, conduzida pelas investigadoras Federica Cagnoli e Aline Hernández, sob orientação de Marta Entradas, partiu de uma questão aparentemente simples: como perceciona a sociedade as universidades, e que função e valor lhes reconhece?
Para lhe responder, cerca de 80 participantes preencheram cartões onde registaram pelo menos três palavras, ideias ou associações que lhes vêm à cabeça quando ouvem "universidade". Depois, situaram as universidades do seu país numa escala de 1 a 7, entre pares de qualidades opostas: elitistas ou acessíveis a todos, antiquadas ou modernas, focadas nos próprios interesses ou dedicadas a ajudar os outros. Cada cartão traz uma pequena parte de um retrato que só se revela quando as perspetivas se juntam.
É esse retrato coletivo que a atividade procura construir, para alimentar a discussão sobre a confiança nas instituições de ensino superior, o seu papel na sociedade e o caminho para se tornarem mais inclusivas e capazes de responder às necessidades de comunidades diversas.
A iniciativa integra o projeto PuReSC – Receção Pública de Comunicação de Ciência, financiado por fundos nacionais da FCT. Coordenado por Marta Entradas, investigadora do CIES-Iscte, este estudo comparativo de larga escala analisa como o público recebe os esforços de comunicação das universidades, com investigação empírica em Portugal, Itália, Alemanha e Reino Unido (parceiros principais), a que se juntam os Estados Unidos e Taiwan (parceiros associados). A metodologia centra-se na comunicação universitária dirigida aos seus públicos e é aplicada a amostras representativas da população de cada país, com segmentação de audiências. Colaboram ainda no projeto Martin Bauer (The London School of Economics and Political Science), Frank Marcinkowski (Institute of Social Sciences, HHU-Düsseldorf), Giuseppe Pellegrini (Observa Science in Society), John Besley (Michigan State University) e Yiu Li (National Sun Yat-sen University).
E se o editor fosses tu?
Na segunda atividade, os papéis inverteram-se: cerca de 80 visitantes assumiram a cadeira de editor. Com recortes reais da imprensa portuguesa sobre ações de ativismo ambiental nas mãos, foram desafiados a propor os seus próprios títulos e a perceber, no gesto, como o enquadramento mediático molda a forma como lemos o mundo.
A proposta nasceu da investigação de doutoramento de Anapaula Folha, A comunicação no ativismo climático e o debate público sobre as alterações climáticas em Portugal, sob orientação de Mehmet Ali Üzelgün. O estudo parte de um dado do nosso tempo: o ativismo climático ocupa um lugar cada vez mais visível no debate público. Mas de que modo a comunicação ativista produz visibilidade, molda discursos e influencia perceções sociais e políticas em Portugal?
Para lhe responder, a investigação percorre três eixos: a cobertura do ativismo climático na imprensa portuguesa, analisada com recurso à análise multimodal; as reações discursivas de políticos portugueses a ações ativistas de grande visibilidade, examinadas através da Análise Comparativa Qualitativa (QCA); e o olhar de dentro, com observação participante do modo como os próprios ativistas planeiam, executam e avaliam as suas ações em função dos efeitos comunicacionais. O objetivo é perceber que contributo tem a comunicação ativista para a sensibilização em torno da questão climática.
Ao levar estas duas propostas ao claustro do MUHNAC, o CIES-Iscte reafirmou o compromisso de aproximar a investigação em ciências sociais da sociedade, num diálogo que se faz com os públicos e não apenas para eles.