Para um Erasmus+ sem barreiras: Inclusion+ apresenta resultados em Istambul
Projeto europeu coordenado pelo CIES-Iscte teve a sua conferência final e apresentou as ferramentas que prometem mudar a forma como universidades e cidades acolhem quem chega.

Há viagens que começam muito antes do embarque e que, para certos/as estudantes, terminam antes mesmo de arrancar. No dia 8 de outubro de 2026, em Istambul, o projeto Inclusion+: Tackling the challenges of Erasmus+ mobility inclusion and diversity at higher education level (2023-1-PT01-KA220-HED-000160391. Financiado pela União Europeia) reuniu na Universidade Galatasaray mais de quarenta investigadores, decisores políticos e profissionais do ensino superior para encerrar um percurso dedicado a uma pergunta: o que é preciso mudar para que a mobilidade internacional deixe de ser um privilégio?

A resposta passou também pela tecnologia. Orestis Papakyriakopoulos, professor de Societal Computing na TUM School of Social Sciences and Technology (Universidade Técnica de Munique), foi o orador convidado, com uma sessão intitulada “Accessibility by Design: Building Ethical AI for More Inclusive Education”. Entre algoritmos e salas de aula, o orador defendeu que a inclusão não se acrescenta no fim do processo: desenha-se desde o princípio, com responsabilidade e com as pessoas no centro.

 

 

Uma experiência transformadora, mas só para alguns?

O Erasmus+ é, para muitos, uma experiência que transforma. Mas nem todos/as partem do mesmo ponto. Estudantes com deficiência e estudantes com responsabilidades de cuidado continuam a deparar-se com obstáculos estruturais que raramente aparecem nos folhetos de divulgação, e que fazem da mobilidade uma promessa nem sempre cumprida.

Liderado pelo CIES-Iscte, o Inclusion+ construiu-se em parceria com instituições de quatro países: o Centro de Investigação e Intervenção Educativas da Faculdade de

Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), também em Portugal, a University of Turku (Turun yliopisto), na Finlândia, a Vilnius University (Vilniaus universitetas), na Lituânia, e a Galatasaray Üniversitesi, na Turquia, anfitriã desta conferência. Pelo CIES-Iscte, a equipa foi liderada por Thais França, Coordenadora do Projeto, e integrou os investigadores Cosmin Nada, Bianca Lyrio, Helena Schimitz e Liliana Azevedo. Com uma abordagem holística, colaborativa e atenta à diversidade cultural, o projeto partiu de uma convicção: acolher bem é uma responsabilidade partilhada entre a universidade e a cidade que recebe.

 

Dar voz a quem raramente é ouvido

Antes de qualquer solução, houve a necessidade de conhecer. O Storytelling Report dá rosto e voz aos estudantes que raramente são vistos nas políticas de mobilidade, perguntando quem são e do que precisam. Em paralelo, o inventário online de boas práticas reúne iniciativas de instituições que já provam que é possível fazer diferente, com abordagens inovadoras e replicáveis que podem inspirar outras.

Depois de ouvir, o projeto sentou à mesma mesa quem raramente se encontra: estudantes, universidades, ONG e decisores políticos. O relatório de síntese Master Collaborative Laboratory reúne as ideias e as recomendações concretas desse laboratório transnacional, e as orientações para dinamizar laboratórios colaborativos funcionam como um manual para quem queira replicar o método, com as lições aprendidas ao longo do percurso.

 

Da evidência à ação

É nas ferramentas mais práticas que o projeto se faz instrumento de mudança. O Roadmap de cenários traduz a evidência em recomendações concretas para instituições de ensino superior e cidades de acolhimento, enquanto a checklist de inclusão transforma essas orientações em passos que qualquer equipa pode seguir. Dirigem-se aos dois lados da experiência de mobilidade: às instituições, propõem uma inclusão que começa na comunicação e na representação e se prolonga no aconselhamento, no financiamento, na flexibilidade académica, no alojamento e na vida do campus; às cidades, pedem informação multilingue e acessível, transportes e habitação transparentes, apoio às famílias e uma oferta cultural e desportiva aberta a todos. E houve ainda espaço para a inovação digital. O protótipo de aplicação móvel, também disponível em Figma, foi concebido com métodos de design centrado no utilizador para ajudar estudantes com deficiência a navegar com mais facilidade nas cidades de acolhimento, e pensado como base modular e escalável para futuras iniciativas. A checklist do protótipo acompanha-o como guia passo a passo, explicando como o processo de design pode ser adaptado a outros contextos e países.

 

 

Ferramentas para continuar a viagem

Mais do que um encerramento, a conferência de Istambul deixou um legado. O Inclusion+ mostra que uma mobilidade verdadeiramente acessível exige coordenação entre universidades e cidades, e que as melhores soluções nascem quando são cocriadas com os estudantes e com os agentes locais que as vivem no dia a dia.

 

 

Todos os materiais desenvolvidos estão disponíveis para consulta e download em inclusion.iscte-iul.pt.