
A migração portuguesa para a Suíça esteve em destaque no encontro «Notre História: migração portuguesa em Genebra e na Suíça». Organizado por Liliana Azevedo (CIES-Iscte) e Valerio Simoni (ICS-ULisboa), a sessão juntou investigadores, estudantes, representantes institucionais, portugueses regressados da Suíça de diferentes gerações e outras pessoas interessadas no tema.
Participaram na abertura o Embaixador da Suíça em Portugal, Lukas Gasser, representantes da Câmara Municipal de Lisboa e do município de Castro Daire e, através de uma mensagem em vídeo, o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa. O Embaixador deixou «um agradecimento sincero aos portugueses e portuguesas que, com o seu trabalho e talento, a sua capacidade de integração e empenho pessoal, contribuíram para que a Suíça se tornasse o que é hoje». A sessão contou ainda com as subdiretoras do CIES-Iscte, Elsa Pegado, e do ICS-ULisboa, Mónica Truninger. Elsa Pegado valorizou o facto de o encontro sair da academia para «um lugar de conhecimento aberto a todas as pessoas» e sublinhou o mérito de juntar «quem estuda estas ligações e quem as vive». Mónica Truninger destacou o interesse de uma iniciativa que dá visibilidade a histórias de várias gerações e percursos, e lembrou que as relações entre Portugal e a Suíça também se construíram pela circulação de conhecimento e de investigadores.

O encontro assinalou a chegada a Lisboa da 12ª e última etapa do percurso memorial «Notre História». A iniciativa é do Bureau de l'intégration et de la citoyenneté do Departamento de Coesão Social do cantão de Genebra com o intuito de reconhecer a presença e os contributos da população portuguesa em Genebra. Lançado em março de 2026 em Genebra, o dispositivo combina um percurso memorial com 12 etapas no espaço público, um site, um jornal e um podcast. O cartaz da última etapa, «Partir ou ficar?», é dedicado ao regresso e vai ficar à porta da Biblioteca Palácio Galveias até ao final do ano. Tem um código QR que dá acesso aos conteúdos da iniciativa, disponíveis em notre-historia.ch. «O projeto sai, assim, das fronteiras suíças e chega a um dos lugares de origem desta migração», sublinha Liliana Azevedo.

O evento incluiu duas mesas-redondas. Na primeira, Ana Benavente e Lucília Salgado recordaram o exílio político e os estudos em Genebra nos anos 60 e 70, bem como o seu trabalho junto dos operários portugueses temporários, os chamados saisonniers. Na segunda, José Carlos Marques (Instituto Politécnico de Leiria), Nazaré Torrão (Universidade de Genebra) e Sofia Loureiro (Gabinete de Apoio ao Emigrante de Castro Daire) debateram a crescente diversificação dos perfis migratórios, os regressos e as vidas construídas entre os dois países.
Os dados apresentados mostram a dimensão desta história. Vivem atualmente na Suíça mais de 264 mil portugueses, representando cerca de 3% da população total. A estes números, somam-se as pessoas com dupla cidadania. Os portugueses são a terceira maior população estrangeira do país e a segunda em Genebra. A Suíça continua, ainda hoje, a ocupar um lugar de destaque nas estatísticas da emigração portuguesa: em 2023 e 2024, foi o principal destino, com mais de 12 mil entradas por ano. Em sentido inverso, na última década, têm saído todos os anos da Suíça, 10 a 11 mil portugueses por ano, a grande maioria de regresso a Portugal. Em Castro Daire, por exemplo, das 190 candidaturas ao Programa Regressar apoiadas pelo município, 135 foram de pessoas vindas da Suíça.
Para Liliana Azevedo, o regresso é um bom exemplo da importância da investigação nesta área: «Tendemos a vê-lo de forma simplificada, mas trata-se de um processo muito diverso e complexo, moldado pela idade, o género, a trajetória migratória e os recursos de cada pessoa», afirma. Em muitos casos, A mobilidade transnacional é intensa, tanto de quem regressa como de quem permanece no estrangeiro, realizando frequentes viagens de ida e volta. «Não se pode, por isso, continuar a pensar no regresso como o fim de um ciclo», defende a investigadora. Conhecer bem estas realidades é, por isso, essencial para elaborar políticas públicas adequadas e adaptadas aos perfis de quem volta para Portugal, acrescentou.





O encontro contou com o apoio do CIES-Iscte, do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa, do ICS-ULisboa, da Universidade de Lisboa, da Câmara Municipal de Lisboa, da Rede de Bibliotecas de Lisboa, da Embaixada da Suíça em Portugal e do Observatório da Emigração.
Texto e fotografias: Liliana Azevedo